segunda-feira, janeiro 02, 2017

Prolegômenos. Charles Fonseca. Prosa

PROLEGÔMENOS
Charles Fonseca

Só um namorico. Treze anos de idade, juvenil ainda, um começo de erótico a esbolsar. Não está errada a palavra, não. A origem estava em duas bolinhas a crescer, uma voz a destoar. O gato que dormia em saco de armazém começando a se espreguiçar. Quer namorar comigo? Escreveu num papel e passou pra ela nos bancos da igreja. Duas pombinhas a crescer sob a blusa azul, um olhar olho no olho, eu olho naquilo. Sim, veio a resposta por escrito. Namoro formalizado, passado em papel. Mas a menina era muito presa. Namorar na porta da casa dela, nem pensar. Entre um hino e outro, uma oração e outra, o sermão do reverendo a correr, uma mão na mão, o livro sagrado cobrindo o profano a se elevar. A fé nas almas, no corpo algo a vibrar, nela algo a se contrair. Mas não passava disso. O olhar severo do pai andava por perto. Feneceu aquele amor primeiro, broxou. E a priminha? Partiu pra ela e ela correspondeu. Agora, sim. Camisa passada, a perfumada água Velva no rosto, calça engomada, vinco perfeito, lá ia pra conversar com a distinta. Mão na mão, pra começar, mão naquilo a maquinar. Namoro na varanda da casa, nem de portão podia. Uma vez, duas vezes, tava na hora de diminuir a conversa e agir, avançar. Súbito, ela aparece com um distinto na porta da igreja, mão na mão. O primeiro corno. Quantos dei, quantos me deram?Melhor calar, essas coisas não se falam. Come quieto, come calado, a regra de ouro.