quinta-feira, dezembro 15, 2016

Baixa dos sapateiros. Charles Fonseca. Prosa

BAIXA DOS SAPATEIROS
Charles Fonseca

Baixa dos Sapateiros! Ainda madrugada, em 1960, saltei da cabine de um caminhão vindo de Jequié para estudar em Salvador. Fui morar num beco, Rua Alfredo Requião 17, na casa de uma tia que mandou a filha morar com meus pais em Jequié sem despesas de parte a parte uma vez que a quantidade de comida se equivaliam. A prima me perguntou se eu sabia beijar e como disse que não ela me deu a primeira aula. Um doce sabor. Uma excelente professora. Mais tarde, apliquei os conhecimentos com outra prima, mas aí, depois eu conto. Dinheiro curto. Estava ali para estudar. Ia a pé para o colégio dois quilômetros pra ir alimentado, dois que pareciam mais na volta, faminto. Era um trajeto ladeira acima pra ouvir aulas no melhor colégio da Bahia. Encontrei só um professor brilhante, de biologia.
Baixa dos Sapateiros! Aí, de supetão, sem motivo, ganhei um soco de um maconhado que fugiu e como um tatu se escondeu na caverna do que seria mais adiante o túnel de ligação da cidade alta à cidade baixa. Salvador era assim dividida. Era o 2 de Julho data em que em 1823 os portugueses foram expulsos do Brasil que já se dizia independente deste 1822... Preso o agressor, lá fui eu levando o infeliz para a polícia, as garotas dos colégios em forma para o desfile comemorativo, saia plissada, blusas brancas com escudo dos colégios sobre o busto encobrindo atrás de si aquilo que gostava de tocar com delicadeza angelical. E elas “coitadinho, tão novo e já vai preso!”. Foi minha estréia militar. Na delegacia, mal chegando e começando a contar o ocorrido pedi que não batessem no agressor. Plaft! Um tapa no rosto do infeliz que desceu para os porões e cujo destino desconheço.
Baixa dos Sapateiros! Cine Tupy. Filmes de faroeste. O porteiro, amigo de minha tia, me deixava entrar pra ver todos os filmes que quisesse, mas só os cinco minutos finais, de graça. Não perdia um. Que fim levou o cine Tupy? “O espaço se transformou num pulsante centro de encontros de travestis, homossexuais, garotas de programa e demais espectadores, que são atraídos pela programação exclusivamente erótica.” Antes, na minha adolescência, ali só mão na mão, mão naquilo só no escurinho do cinema. Aquilo naquilo só na minha imaginação. Nem os filmes mostravam, só davam a entender. Entendeu?