sábado, maio 27, 2017

Internação forçada de toxicomanos. Marcelo Ferreira Caixeta. Médico psiquiatra.

"O que acontece com um dependente químico que é HOSPITALIZADO À FORÇA ? O tratamento médico dele não dá certo ? A medicina, o hospital, não tem recursos para ele ? Ele terá um futuro ?Muitos me CRITICARAM quanto à isso quando defendi as internações forçadas de Dória na Cracolândia. Tento responder isso com uma experiência, estudos e pesquisas médico-psiquiátrico-hospitalares de 36 anos.
..............
1/ O paciente chega ao hospital revoltado, quer ir embora, fugir, não quer ser privado de liberdade, “vocês não tem o direito”, “não estou louco”, “paro quando eu quero”, “se não quiser ninguém me faz parar”, “sair daqui e volto tudo de novo”, “vocês não sabem quem eu sou, irão pagar, vou te pegar”, “vou quebrar tudo”, “vou acabar com sua vida, sei de sua rotina”, “vou te processar”. Não acredita que pode ficar livre da droga, “quer largar dela, sabe que lhe prejudica, mas não quer o tratamento”. Agressividade muito grande. Necessário uso de medicação ataráxica/neuroléptica.
2/ com um ou dois dias de medicação psiquiátrica adequada, a resistência diminui, muitos até já começam a aceitar a hospitalização. Surgem a abstinência, a depressão, ansiedade, hiperatividade, grande inquietação, doença bipolar subjacente à droga. Têm de ser convenientemente tratados, com uso de medicação para estas situações, ou seja, medicações : normotímica/antidepressiva/ansiolítica/psicoestimulante/dopaminérgica/serotoninérgica/ antiabstinência ( p.ex., clonidina, propranolol, benzodiazepínicos, antipsicóticos, etc, para abstinência cocaínica ) .
3/ Em quase 100% dos casos de toxicomania grave há uma patologia psiquiátrica outra subjacente. Por exemplo, hiperatividade, depressão, ansiedade, bipolaridade, transtorno delirante. O paciente irá precisar de medicação para o tratamento dessas patologias.
4/ Irá também precisar de medicação que “corte” o efeito das drogas. Para cada droga há medicações específicas, que ajudam a manter a abstinência. Por exemplo, grosso modo, para o tabagismo há vareniclina ( sim, para nós, psiquiatras, cigarro também é considerado droga ) , para a cocaína há a bupropiona, para maconha há levomepromazina, para o álcool há benzodiazepínicos, naltrexone, acamprosato.
5/ Estudos mostram que , se não tratar o tabagismo, a chance de haver recaída de drogas mais graves – p.ex., cocaína – é muito mais alta. O tabagismo é a droga mais difícil de ser tratada. Muitas casas de recuperação/hospitais não atacam o problema , pois dá canseira demais, mas sem atacá-lo, a chance de recaída aumenta muito.
6/ Com estas medicações, em breve tempo o paciente já está melhor da toxicomania, da abstinência, ansiedade, depressão, psicoses, ou outros sintomas. Agora começa uma fase difícil, pois a maioria não quer trabalhar, não querem fazer algo para passar o tempo, aí entregam-se a um tédio preguiçoso que será o principal obstáculo ao tratamento. O dependente que trabalha durante a hospitalização tem uma chance bem maior de recuperação, mas a maioria não gosta de trabalhar, não aprendeu a trabalhar, não foi forçada a isso pelo pai, família, comunidade.
7/ O tratamento médico-hospitalar da toxicomania é relativamente fácil e exitoso. Nessa fase, aproximadamente 95% daqueles que ameaçavam por terem sido internados à força dizem que concordam com a internação. A frase mais ouvida é : “eu precisava mesmo, estava muito ruim”. Salvo intercorrências médicas ou psiquiátricas mais graves, em pouco tempo o paciente já está melhor. Agora entra em cena o que é realmente mortal para o dependente : a Família, o Estado, as Instituições ( “casas de recuperação”, hospitais, profissionais de saúde ). Sobre estas instâncias “mortais” falarei em um próximo artigo.
Marcelo Ferreira Caixeta
Médico psiquiatra