sábado, abril 29, 2017

Se a doutrina sagrada é ciência. Suma Teológica. São Tomás de Aquino

Art. 2 — Se a doutrina sagrada é ciência.
(IIa IIae., q.1, a. 5, ad 2; I Sent., prol., a. 3. qa
. 2; De Verit., q. 14 a. 9, ad 3; in Boet., De Trin., q. 2, a. 2)
O segundo discute-se assim — Parece não ser ciência a doutrina sagrada.
1. — Pois toda ciência provém de princípios por si evidentes, ao passo que procede a doutrina sagrada
dos artigos da fé, inevidentes em si, por serem não universalmente aceitos; porque a fé não é de todos,
diz a Escritura (2 Ts 3, 2). Logo, não é ciência a doutrina sagrada.
2. — Ademais, do indivíduo não há ciência. Mas a doutrina sagrada trata de fatos individuais, como
sejam os feitos de Abraão, Isaac, Jacó e semelhantes. Logo, não é ciência a doutrina sagrada.
Mas, em contrário, Agostinho: A esta ciência só aquilo se atribui com que se gera, nutre, defende e
corrobora a fé salubérrima. Ora, a nenhuma ciência pertence tal, senão à doutrina sagrada. Por onde, é
ciência a doutrina sagrada.
SOLUÇÃO. — A doutrina sagrada é ciência. Porém, cumpre saber que há dois gêneros de ciências. Umas
partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e
semelhantes. Outras provém de princípios conhecidos por ciência superior; como a perspectiva, de
princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a
doutrina sagrada, pois deriva de princípios conhecidos à luz duma ciência superior, a saber: a de Deus e
dos santos. Portanto, como aceita a música os princípios que lhe fornece o aritmético, assim a doutrina
sagrada tem fé nos princípios que lhe são por Deus revelados.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Os princípios de qualquer ciência, ou são por si mesmos
evidentes, ou se reduzem à evidência de alguma ciência superior. E tais são os princípios da doutrina
sagrada, como dissemos.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Na doutrina sagrada, os fatos individuais não são tratados principalmente,
senão apenas introduzidos a título de exemplo prático, como nas ciências morais; ou também no intuito
de apurar a autoridade dos homens que nos transmitiram a revelação divina, na qual se funda a Sagrada
Escritura ou doutrina