segunda-feira, abril 24, 2017

Corredor da Vitória. Charles Fonseca. Prosa

CORREDOR DA VITÓRIA
Charles Fonseca

Pelo Corredor da Vitória na Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos andei muito a pé pois não tinha dinheiro para o ônibus. Foi no tempo que só tinha duas camisas 'Volta ao Mundo' da Valisère. Uma, azul claro, a outra rosa. Vê como não tinha preconceito? Enquanto usava uma a outra estava secando. Quarto ano de medicina, um colega, ao comentar comigo meu guarda roupa, observou que eram só duas as camisas que eu usava, mês após mês. Parava no Hotel Plaza, lia os jornais na recepção, seguia em frente, almoçar. Morávamos no mesmo quarto nesse Corredor da Vitória, seis ao todo, três beliches, na Residência dos Universitários. Um, estudante de medicina consta que Lamarca passou por perto dele no sertão da Bahia. Falecido. O que morava na parte de cima do beliche, também do sertão, me propiciou um carnaval inesquecível ao inesperado colega de quarto que por lá apareceu atendendo a um antigo convite. Superou o trauma de um falecimento três meses atrás de um familiar e me recepcionou carinhosamente. Agora estou a lembrar de suas irmãs também hospitaleiras. Os céus o presentearam por esse gesto colocando no seu caminho, no salão de festas, melhor dizendo, uma bela morena, com a qual é casado até hoje, vão bem, obrigado. Tive um namorico com a prima dele, coisas de carnaval.O meu colega de beliche, no andar de cima, um assombro para mim. De aluno esforçado nos três primeiros anos, passou a ter nos últimos três anos notas excelentes em todos os estágios. Minha homenagem. Mais um beliche, o colega de baixo, ganhava seu dinheirinho como policial e soube que andou soltando colegas presos nas passeatas contra a ditadura. Já o homenageei. Encontrei-me há uns dez anos com ele e sua filha e, emocionado, relatei a ela o comportamento dele. No andar de cima do seu beliche, outro colega que, diferentemente de mim tinha vinte e sete camisas. Que fartura! No terceiro beliche, no andar de baixo um colega que mais lia sobre Marx, Engel, Lênin,Trotsky, Mao, que propriamente estudava a medicina. Um animal político que tinha a coragem de agarrar policial de metralhadora e derrubar na rua em plena passeata estudantil. Que coragem! O do andar de cima, esse destoava. Estudava filosofia. Deu o azar de ser homônimo de um líder estudantil que sumiu quando veio o golpe de 64. Os atrapalhados acharam que o líder era ele. Foi solto após um pequeno estágio no exército onde um major tinha prazer em ouvir o cândido, o doce companheiro de quarto toda segunda feira onde ele era obrigado a ir para dar satisfações ao sádico de plantão. Até que todos os monges do Mosteiro, esse era o apelido do nosso quarto, em concílio o aconselharam, depois de seis meses a não ir mais ao quartel. E assim foi feito, sem efeitos colaterais adversos.