terça-feira, janeiro 10, 2017

Ser poeta. Charles Fonseca. Prosa

SER POETA
Charles Fonseca

Ser poeta tem suas peculiaridades, agradáveis e, digamos, trabalhosas. O seu imaginário é hipertrófico, insaciável, o desejo não pára de simbolizar em letras, em omissões, em reticências, exclamações. Quando pontua vem logo uma vírgula, um entretanto, pronto chega o ponto de continuação e às vezes pára por aí. Outras vezes dois pontos sensíveis no busto da musa, outras vezes uma admiração se erige na sua alma, no profundo do seu ser e ela fica num estar muito bem, muito bom, quero mais. Ao longe tudo encandeia, no escuro , nas sombras da alma das concorrentes paixões, um será que sou eu, quem será, será ela, por Juno , por Apolo, pelos orixás, oxalás outras também? E o poeta que nem pensou em outra só na sua musa concreta ou etérea sente no ar o enlevo, a espera, a paixão, uma tesão no ar, um almejo. É portanto um bruxo, um falsário, o real é bem aqui mas podia ser ali, por que não? por que não?