sábado, janeiro 14, 2017

Quando a puta nos deixou. Charles Fonseca. Prosa

QUANDO A PUTA NOS DEIXOU
Charles Fonseca

Fico admirado como ainda existem prostitutas. Quando eu era criança, do fundo do meu quintal eu com menos de 9 anos subia no muro e ficava olhando "A avenida" onde moravam as putas, lugar misterioso onde eu só podia ver escondido de lá de cima do muro. O que é que ocorria naquele lugar que eu ainda não sabia lá muito bem. Aos 15 anos eu soube. Passar pela Avenida, nem pensar. Nem mesmo pra vender as revistas "O Cruzeiro" , "A Cigarra" que eram as revistas decentes da época. Gibi não podia, pois estimulavam a violência. Minha mãe além de agente postal telegráfica tinha em 1954 uma banca de revistas no balcão do Correio onde quem quisesse podia comprar as revistas da época que era para melhorar o nível cultural do povoado de Ibicui, como ela dizia. E lá ia eu de porta em porta a gritar pro fundo das casas com a voz infantil "Quer comprar Cruzeiro"? Uns compravam, outros folheavam a revista inteira pra ver as reportagens e não compravam. Os comerciantes, nas lojas, vendas, açougues, quitandas, então, eram especialistas na prática. "Hoje a revista não está boa", e lá ia eu adiante um tanto decepcionado. Mas voltemos ao tema da putaria. De vez em quando uma ia mas era pro cemitério. Certa vez, uma morreu. Não tinha quem fizesse o enterro.. Acho que já contei essa história, mas vale repetir. Minha mãe tomada de misericórdia, disse: "pois eu vou fazer o enterro". Arranjou cinco arranjos de flores, uma para cada filho, e disse "vamos enterrar a moça". Eu nunca tinha ido ao cemitério, tinha medo de alma, não podia ir na Avenida que era a rua das decaídas e agora ia entregar o corpo de uma delas ao chão. Um conflito moral, uma prova de bondade que nunca mais esqueci. O meu irmão mais novo tinha 3 anos e foi dada a mão a minha mãe, a líder do cortejo. A linha de frente da escola de misericórdia éramos nós. Assim foi meu primeiro contato corpo a corpo com uma puta: entregar seu corpo ao chão.