sábado, janeiro 14, 2017

Qual a cor do seu catarro? Dani Altmayer. Prosa

Qual a cor do seu catarro?
Dani Altmayer

Como podem dizer que um médico não conhece a realidade?
Poucas pessoas conhecem tão bem a realidade quanto um médico.
Aliás, ninguém se forma em medicina sem antes levar um choque de realidade.
Que começa lá no começo. Primeiro ano. Cadáveres. Os desconhecidos que doam, sem saber, seus corpos para serem estudados. Alguém consegue esquecer o primeiro dia de uma aula prática de anatomia?
Essência de formol é o perfume do primeiro ano. Os sonhos são com músculos, ossos, nervos, artérias e veias. Tratados gigantes e atlas coloridos, são a leitura de todas as horas. E eles nada tem a ver com aqueles corpos acinzentados, que passamos a conhecer profundamente. Muitas vezes é preciso adivinhar. Delicadas (ou nem tanto) incisões, debridamentos, cortes. Mergulhamos em um universo paralelo, nos isolamos do mundo, para conhecermos a fundo aquilo que será nosso material de trabalho para sempre: o corpo humano. O corpo humano e suas misérias. Seus mistérios.
Passamos horas de nossas vidas acadêmicas examinando tecidos, secreções, urina e fezes. Criamos intimidade com vírus, bactérias, vermes e afins. Largamos amigos, namorados, a vida, para fazermos estágios, plantões, congressos e cursos. Esquecemos a ficção para enfiar o nariz em grossos livros de patologia, de semiologia, de fisiologia. Usamos nossos parentes como cobaias para treinar nosso exame. Decoramos nomes de remédios, fatores de risco, tipos de febre.
Atendemos pacientes, na maioria de origem humilde, (na maioria pacientes do SUS), e com eles travamos longas conversas. Anamneses. Perguntamos a cor do catarro, o cheiro do xixi, o jeito da dor, o nome do filho. Queremos saber a profissão, a alergia, e o sonho de cada um. Quebramos a cabeça em busca de diagnósticos e de tratamentos mais adequados. Sofremos as perdas. Comemoramos as vidas.
Aprendemos que, não importa a cor, o sexo, ou o status social: o intestino e o fígado são os mesmos. Coração partido também.
Todo mundo é igual por dentro.
O curso de medicina desmancha qualquer romantismo. Acaba na hora com a ilusão. É mão na massa, e a massa nem sempre cheira bem. É cabeça metida nos livros. É olho clínico, sem nunca poder ser cínico. É 24, 36, 72 horas de plantão, os pés doendo e os cabelos sujos, um lanche requentado e uma cama fria.
Ninguém sai do jeito que entrou. Ninguém se forma em medicina sem se transformar. Sem passar pelo estágio obrigatório da realidade. A mais sórdida e cruel verdade. A realidade das mazelas, do corpo e da alma.
Isso não faz do médico um santo. Médicos não são deuses, longe disso. São apenas seres humanos, a serviço de outros seres humanos. Em qualquer condição.
São gente. Mas gente formada em realidade.
Não são os médicos que não a conhecem, como andam dizendo.
São as pessoas que não conhecem a realidade de um médico.
- Dani Altmayer (médica)

(Retirado de: www.entretantosatos.blogspot.com.br/…/qual-cor-do-seu-catar…)