quinta-feira, dezembro 29, 2016

Pobre família rica. Charles Fonseca. Prosa

POBRE FAMÍLIA RICA
Charles Fonseca

Eram nove. Sobreviveram oito. Sete mulheres. Que fartura! Muito pobres, muito ricos. Ele, um boêmio de voz encantadora. Uma patativa, um rouxinol, uma sabiá. Sabia agradar as mulheres. E foi abençoado. À noite, deitavam-se em torno dele na cama do casal, de travessa para comportar a todos. Cantava “E a fonte a cantar” e a filharada respondia “chuá, chuá”... Ele retrucava “E a água a correr” e o coral “chuê, chuê”. Que bela cena, que amor sem amanhã! Até hoje, velhinho, todos a reverenciar sua imagem, a cada semana um deles se reveza em estar presente junto aos pais. Silente, sábia, mãe ternura, a mulher que a todos criou a ajudá-lo hoje como sempre, a relevar seus senões, a contornar o incontornável, a todos os filhos dizia sem hesitar “Ele é o pai”. Esta a família humilde e sábia que me acolheu e maior prêmio, a filha primeira, espero que me acompanhe aos meus últimos dias.