terça-feira, novembro 15, 2016

Olhar. Charles Fonseca. Prosa

OLHAR
Charles Fonseca

Recalcou. A dor foi tanta que não quer recordar mais nada. Nem quer mais aparar as arestas dos arranhos da alma, nem lembrar das fissuras do cristal que jaz ao chão, a virar pó. Só que saber do outro a sua rotina, o seu conjuntural passante, nada do passado, pouco do futuro. À frente, uma vida pra viver, atrás uma a esquecer. O tempo urge, a vida tem pressa, trabalho à beça, a gente se vê, a gente se fala, o tempo escoa, as oportunidades escassas. É a hora do esquecer o inesquecível, de perdoar o possível, de jogar na cruz de Cristo esse imenso fardo do amor não vivido, do afago crespo, do choro escondido, o olhar perdido.