quarta-feira, outubro 05, 2016

Fazenda Mansão. Charles Fonseca. Prosa

FAZENDA MANSÃO
Charles Fonseca

É com emoção que inicio esta prosa à beira da fogão a lenha, do fogareiro, do borralho. Cheira a juriti assada na brasa, nambu, rolinha ‘fogo pagô’. Hoje sou vegetariano com alguns pecadinhos da carne, alguns pedacinhos, digo melhor. Era o que tinha pra comer naquela caatinga cinzenta. Quando faltava, valia comer um calango ou um teiú. Meu pai ganhou a terra por doação de um amigo, dentista “prático”, como se dizia. Centro da Bahia, Maracás. E lá naqueles ermos ele plantava aipim, abóbora, melancia, mamona. Quando chovia, só de outubro a março, havia produção, o transporte ficava escasso. A quinze quilômetros da roça, a Serra Geral onde víamos a chuva caindo e lá parava. Não vinha até nós. A água era buscada de jumento, dois carotes de cada vez. Nunca faltou água no Pé do Morro. Todos se serviam. Lâmina d’água, doze metros quadrados. Respeitosamente, de um lado os homens enchiam os carotes. Do outro , divididos dos humanos por cerca de arame farpado os jumentos, porcos galinhas, etc. Todos se serviam. Um xixi ou um cocô na margem, nada a reclamar. O sol a todos esterilizava. Ninguém morria de sede; ninguém tinha diarreia. Se estávamos a caçar naquelas solidões e faltava água, na raiz do umbuzeiro, único verde com o mandacaru e periquitos, sempre havia uma cabaça com água da mais pura, friinha.Um cão vira lata nos fazia a guarda contra as suçuaranas que meu pai dizia ser onça mansa. Eu morria de medo nos meus treze anos. Deu de criar cabras. Fomos a Uauá e compramos um bode anglo nubiano, o mais bonito da exposição. O empreendimento não deu certo. Com grande freqüência uma cabra não voltava fim da tarde para o curral. À vezes chegava uma sangrando, corrida da onça que por essa época andou muito bem servida.