quarta-feira, agosto 31, 2016

Cosquinha. Charles Fonseca. Prosa

COSQUINHA
Charles Fonseca

Comecei a escrever poemas a partir de dezembro de 2001. Já se foram onze anos. Em circunstância dramática, morei com meu pai durante seis meses,.ele já com oitenta e nove anos. Me olhava e só me ouvia o pouco que eu falava. Ele era um poeta. Fazia uns versinhos de cunho moral religioso. Certa vez ao ir a hospital com ele, deu um dos seus poemas a recém conhecido e me disse: - Não tenho cartão de visita. Me apresento, converso e deixo com a pessoa um poeminha. Guardei a lição. Certo dia, ao me ver tristonho falou: - Meu filho, faça um poema e me mostre. – Meu pai, não sei fazer poemas. – Mas faça, meu filho, só um. Ele próximo da partida e eu parado no meio da estrada. Fui ao fundo do quintal sob abacateiro e mangueira e redigi um. – Tome, meu pai, o seu poema. Ele leu e me disse: - Faça mais um... Como recusar eu que tanto estive distante? À sombra das árvores fiz outro e lhe entreguei. Ele leu, olhou para mim e me disse:- Meu filho, você tem jeito. Não pare de escrever. Desde então já compus se não cerca de dois mil, perto já está. Divulgáveis só pouco mais de seiscentos. Face ao drama, de início muitos lacrimosos, outros a solidão à mostra, além dos que não podendo nem devendo falar, escrevia. Uma catarse e tanto! Divulgo meus escritos em ordem mais ou menos cronológica, não refletem o meu ser de agora. Sombras do passado, gorjeios líricos, uns azedos outros cáusticos, tem de tudo. A poesia é a emoção concentrada. Também através dela vislumbres de como é, foi ou será o autor, que mais recentemente passou a escrever em prosa, coisa a princípio amedrontadora. Mas é como diz o vulgo: trair e coçar é só começar. Tá sentindo uma cosquinha, também? Escreva, é só começar.