domingo, julho 17, 2016

Doença imaginária

Ministro da Saúde diz que a maioria das doenças no SUS é “imaginária”. Eu faço uma crítica a essa afirmação.
Quando Temer, por motivos politiqueiros, optou por colocar um ministro não-médico no Ministério da Saúde , eu critiquei publicamente, não por qualquer “orgulho médico” ou “reserva de mercado” ( modéstia às favas, não preciso disso ), mas sim por causa disso que estamos vendo aí na manchete : ele não sabe o que fala, e quem não sabe o que fala, geralmente não sabe o que faz. Abaixo eu elenco várias falhas técnicas neste discurso do ministro.
1/ Ele confunde “doença imaginária” com “doença psicossomática” : em determinado momento chama as doenças “imaginárias” de “efeitos psicossomáticos”. Ensinando ao senhor ministro : tecnicamente falando, “doença psicossomática” não é uma “doença imaginária”, é uma doença como outra qualquer, com lesão, fisiopatologia, anatomia patológica ( ou seja, é uma doença que , “se você levar no microscópio”, e até à olho nú, você verá a LESÃO ). É doença e tem lesão, o que a diferencia de outras doenças é que fatores “psicológicos”, ansiedade por exemplo ( que, na verdade, também é um sintoma biológico, mas deixa isso prá depois...) , pode piorar, agravar muito ou desencadear a doença, até então latente. Um de meus pacientes, por exemplo, jovem universitário com Doença inflamatória intestinal de Crohn, tem surtos de diarréia, hemorragia intestinal, cólicas graves, quando está muito nervoso com as provas.
2/ A população mais pobre tem mais doenças psiquiátricas, psicossomáticas, do que a população mais rica. Ao contrário do que se pensa, comumente, de modo geral, não é a pobreza que condiciona a doença, mas sim a doença que leva à pobreza. Um doente mental, por exemplo, ansioso, depressivo, hiperativo, irá usar de drogas, álcool, nicotina, “correr demais na moto”, comer demais, sexo demais, etc - tudo para aplacar sua doença subjacente. Tais comportamentos irão prejudicá-lo do ponto de vista laboral, financeiro, ou seja,irão torná-lo mais “pobre”.
3/ Grande parte de queixas médicas ambulatoriais no SUS, sobretudo femininas, são decorrentes, de fato, de doenças psiquiátricas, ansiedade, depressão, obsessão, fobia, transtornos alimentares, sexuais, etc, e sem assistência médica psiquiátrica adequada ( o SUS , de fato, é “anti-psiquiátrico” , como já abordei em vários outros artigos ), tais pacientes tendem a um “hiperconsumo médico”, tendem a um “hiperconsumo laboratorial”. O SUS não tem médicos psiquiatras suficientes nem em centros psicossociais ( nas minhas projeções, apenas 30% são verdadeiramente psiquiatras nestes locais ), imagine em ambulatórios normais.
4/ O médico clínico geral, não-especialista em psiquiatria, tende a “não entender” este tipo de paciente, pede muitos exames, envia o paciente para vários especialistas, em síntese, “consome muito o SUS”. Dou um exemplo ( caso real ) : jovem com 24 anos, muita tonteira, vai em posto de saúde, o clínico geral inicial passa antivertiginoso, cinarizina; não melhora, piora. Vai em outro, passa outra medicação, derivados do ergot, para “labirintite”, não melhora. Outro clínico geral ( tudo em postinhos do SUS ) acha que precisa de avaliação de ouvido ( labirintite ?), manda para fonoaudióloga. Esta pede exames, audiometria, impedânciometria, teste de pares cranianos feito por fonoaudiologa, electrovectonistagmografia, potencial evocado troncular auditivo, etc. Não dá em nada. A fonoaudiológa manda para outra fono, especialista em audiologia. Esta manda para um otorrinolaringologista. Este envia para um exame neuro-otológico, com neurologista especialista. Este envia para um outro otorrino, especialista em equilíbrio. Exames e mais exames. Aí a paciente desenvolve taquicardia. Vai ao cardiologista, faz dois exames ergometricos, mapeamento de pressão arterial ambulatorial, Holter , três ECGs, um ecocardiograma, um doppler carotídeo. Não acha nada, o cardiologista envia para psicóloga, que dá o diagnóstico de “transtorno de ansiedade”, indica o tratamento. A paciente fica em psicoterapia por 5 meses, com a psicóloga, não melhora. Começa a deprimir, da depressão vai para estupor , deste para uma melancolia francamente psicótica. Só então é internada num hospital psiquiátrico, onde o diagnóstico é feito, “depressão bipolar”, com ataques de pânico iniciais ( os ataques de pânico explica os sintomas labirínticos, cardiológicos, etc ). Ou seja, houve um enorme hiperconsumo médico-laboratorial porque o SUS não dispõe de médicos especialistas corretos no lugar certo.
5/ Os pacientes ficam numa “via crucis”, não têm resolvido seu problema, consomem médicos, laboratórios.
6/ Se o SUS disponibiliza “médico de graça”, “hospital de graça”, “exame de graça”, todo mundo tende a hiperconsumir mesmo, o Governo tá reclamando de quê ? Foi ele mesmo quem inventou este sistema ( aliás, um sistema que não é só apanágio do SUS, mas também de muitos planos de saúde, onde médicos atendem rápido, superficialmente, e com o intuito único de pedirem exames e faturarem com clínicas e hospitais das quais são os donos ou sócios ).
7/ O próprio SUS é quem estimula o serviço médico feito por não-médicos ( por exemplo, psicólogos dando diagnósticos psiquiátricos, como vimos acima ), feito por “técnicos em medicina” ( cubanos que não têm diploma médico válido ), feito por recem-formados ( estimulados para trabalhar no SUS para obterem cotas em cursos de especialização médica futuros ), feito por médicos insatisfeitos, mal-formados, apressados, “obrigados a trabalhar no SUS” ( o Governo estimulou a abertura de “faculdades-de-metirinha” para enxer o SUS de médicos baratos ). O governo obrigou estudantes de medicina, obrigou médicos residentes, a fazerem sua “formação” no SUS, o que, na verdade, não passa de uma deformação, que uma hora ou outra irá cobrar sua fatura.
8/ o SUS tem serviços mal-gerenciados, mal-pagos, onde um médico, como disse acima , geralmente mal-formado, ou deformado, tem de atender uma carrada enorme de pacientes. O médico mal-formado não sabe fazer um exame físico adequado ( a “semiologia” é a matéria mais importante do curso médico, mas precisa de prática, de pacientes, de hospitas, e geralmente é muitíssimo mal-dada ), colher uma história da doença adequada, e , mesmo que soubesse, mesmo que quisesse, o médico não teria tempo para isso ( a fila é enorme ). Resultado, um atendimento o mais superficial possível, até pior do que num balcão de farmácia. Consequências : exames e mais exames, paciente insatisfeito, doença não resolvida, procura de outros médicos, procura de especialistas, procura de “terapias alternativas” dentro do SUS,etc.
9/ Neste sistema “falho” , muitos hospitais, laboratórios, médicos, direcionam sua vida para a “pedição de exames”, para a “busca de procedimentos caros”, para hospitalizações, etc. Diriam : “é o único jeito da gente ganhar dinheiro, e até sobreviver”. O sistema do SUS vai piorando, e o SUS vai piorando o sistema, pois o próprio SUS conspira para fechar eventuais serviços médico-hospitalares-laboratoriais privados que poderiam dar certo. A “cultura da medicina superficial” se espalha, atinge até a “medicina fora do SUS” ( sobra pouco lugar para o médico trabalhar fora do SUS, e o SUS promove um tipo de “dumping”, ou seja, se “tem médico de graça”, o povo não valoriza o médico ).
10/ Portanto, Sr. Ministro da Saúde, se há “hiperconsumo médico-laboratorial”, a “culpa” não é do paciente, não é do médico, não é do hospital, é do sistema falido que o senhor dirige. Então, por obséquio, queira apontar a arma para a própria cabeça.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra.