Sábado, Julho 18, 2009

POESIA

BAZAR DE ESPANTOS
Geraldo Carneiro

eu não tenho palavras, exceto duas
ou três que me acompanham desde sempre
desde que me desentendo por gente,
nas priscas eras em que era eu mesmo.
agora sou uma espécie de arremedo,
despido das minhas divinaturas.
já não me atrevo ao ego sum qui sum.
guardo no entanto em meu bazar de espantos
a palavra esplendor, a palavra fúria,
às vezes até me arrisco à palavra amor,
mesmo sabendo por trás de suas plumas
a improvável semântica das brumas
o rastro irremediável de outro verso
ou quem sabe a sintaxe do universo.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

PINTURA


Em tempos de guerra. Goya. Clique para ampliar.

Quinta-feira, Julho 16, 2009

MÚSICA

O Mare e Tu - Andrea Bocelli e Dulce Pontes.

PROSA

SERMÃO DO BOM LADRÃO
Padre Antonio Vieira (1655)
I

Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos. Permite isto a misericórdia de Lisboa? Não. A primeira diligência que faz é eleger por procurador das cadeias um irmão de grande autoridade, poder e indústria, e o primeiro timbre deste procurador é fazer honra de que nenhum malfeitor seja justiçado em seu tempo. Logo esta parte da história não pertence à Misericórdia de Lisboa. A outra parte — que é a que tomei por tema — toda pertence ao Paço e à Capela Real. Nela se fala com o rei: Domine; nela se trata do seu reino: cum veneris in regnum tuum; nela se lhe presentam memoriais: memento mei; e nela os despacha o mesmo rei logo, e sem remissão, a outros tribunais: Hodie mecum eris in Paradiso. O que me podia retrair de pregar sobre esta matéria, era não dizer a doutrina com o lugar. Mas deste escrúpulo, em que muitos pregadores não reparam, me livrou a pregação de Jonas. Não pregou Jonas no paço, senão pelas ruas de Nínive, cidade de mais longes que esta nossa, e diz o texto sagrado que logo a sua pregação chegou aos ouvidos do rei: Pervenit verbum ad regem (Jon. 3,6). Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis, e mais ainda aos estrangeiros que aos nossos. Todos devem imitar ao Rei dos reis, e todos têm muito que aprender nesta última ação de sua vida. Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: Hodie mecum eris in Paradiso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria.

Quarta-feira, Julho 15, 2009

ESTATUÁRIA


Arte estatuária. Clique para ampliar.
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Barberini_Faun_front_Glyptothek_Munich_218_n1.jpg
A RAPOSA E O LENHADOR.
Esopo.

Uma raposa era perseguida por uns caçadores, quando viu um lenhador e suplicou que ele a escondesse. O homem então lhe aconselhou que entrasse em sua cabana.
De imediato chegaram os caçadores, e perguntaram ao lenhador se havia visto a raposa.
Coma voz ele disse que não, mas com sua mão disfarçadamente mostrava onde havia se escondido.
Os caçadores não compreenderam os sinais da mão e se confiaram no que disse com as palavras.
A raposa, ao vê-los irem, saiu sem dizer nada.
O lenhador a reprovou porque, apesar de tê-la salvo, não agradecera, ao que a raposa respondeu:
--Agradeceria se tuas mãos e tua boca tivessem dito o mesmo.
Não negues com teus atos, o que pregas com tuas palavras.

Terça-feira, Julho 14, 2009

MÚSICA

Mireille Mathieu canta La marseillaise. Hino nacional francês.

POESIA

LIÇÃO DE GEOGRAFIA
Eduardo Carranza

Limito ao Norte com o Mar Caribe
que banha-me a fronte de cristal
e nácar lânguido.

A Ocidente com o Grande Oceano
que ergue seu ramo de violenta espuma
com mão trêmula.
Peixes azuis nadam por meu peito.

A Oriente toca-me o Orinoco:
passa o rio pela porta de minha alma
umedecendo-me os sonhos.
Levo às costas pássaros e ventos
de asa libérrima.

Ao Sul o Amazonas me limita:
a doce lua onde apóia o pé
a pátria minha.
A selva está na margem de meu sangue:
orquídea e tigre.

É meu Zênite o pássaro do céu
que abre as asas sobre minha Colômbia,
quieto e voando.

E é meu Nadir a terra que me espera:
nossa amante final vestida de folhas,
que tenho mordido nas frutas e beijado
na que eu amo.

Sou um torrão que canta, uma bandeira
tricolor desbocada sobre um potro
da planície.

Se abrisse minhas veias
a palavra Colômbia saltaria
aos borbotões.

É um rio quem firma este poema.

PINTURA


Jardim japonês. Monet. Clique para ampliar.