Terça-feira, Outubro 07, 2008

REBROTOS
Charles Fonseca

Ah, dama de olhares vagos
Tu não viste o meu de choro
Meu sorriso sumidouro
De emoções veladas pagos

Erros de mim e de ti
Mentiras tão costumeiras
Agora flechas certeiras
Cupido setou-me a rir

Sorrio de novo alvores
Antes eu só desalentos
Morrem espinhos tormentos
Brotam em mim novos amores.

Derain.
“Manhã de Carnaval”, Luís Bonfá e Antônio Maria.

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

AS SEM RAZÕES DO AMOR
Carlos Drumond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Visitação, Denis.
"O novo mundo", Sinfonia, Dvorak.

Domingo, Outubro 05, 2008

SEDUÇÃO
Adélia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Delacroix.
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“Estrada do Sol”, Gal Costa e Elis Regina.